Compreender os nossos gatos nem sempre é uma tarefa simples. Eles são carinhosos, expressivos e cheios de personalidade, mas, ao mesmo tempo, possuem uma habilidade incrível de esconder quando algo não está bem. Esse comportamento faz parte do instinto natural deles, o que pode tornar muito difícil para nós, tutores, reconhecer quando estão sentindo dor.
Na maioria das vezes, os sinais são extremamente sutis. Uma pequena mudança de comportamento, uma alteração na rotina ou algo que simplesmente parece um pouco diferente do habitual pode ser o único indicativo de que o seu felino precisa de ajuda. Neste artigo, exploraremos por que os gatos mascaram a dor, quais são os sinais comportamentais aos quais você deve estar atento e como podemos entender melhor o que os nossos companheiros felinos estão tentando nos dizer, com base em informações de especialistas e pesquisas recentes.
Por que os gatos são tão bons em esconder a dor?
Assim como os seus ancestrais selvagens, os gatos domésticos são geneticamente programados como sobreviventes autossuficientes, o que os torna altamente sensíveis às ameaças ao seu redor. Os gatos ocupam uma posição única na cadeia alimentar: são predadores de pequeno porte, mas também são presas. Por isso, mascarar os sinais de dor é uma estratégia de sobrevivência fundamental. Parecer vulnerável ou fraco os colocaria em risco de serem atacados por predadores maiores.
Como saber se o meu gato está com dor?
Cada gato é único e experimentará a dor de maneira diferente. No entanto, a dor, especialmente se não for tratada, pode impactar negativamente o bem-estar do animal de forma profunda. A dor não é apenas uma experiência sensorial física; é também uma experiência emocional desagradável.
Como os gatos não podem verbalizar o seu desconforto, devemos procurar ativamente pelos sinais, que geralmente se manifestam através de mudanças no comportamento. Estas alterações podem incluir:
Redução de comportamentos felinos normais
Gatos com dor passarão menos tempo ou pararão completamente de se envolver em comportamentos típicos da espécie, como se limpar (grooming), explorar (especialmente ao ar livre), pular, escalar, caçar, brincar ou arranhar superfícies. Quando o ato de arranhar diminui ou cessa, é comum que os gatos desenvolvam garras excessivamente longas, um problema que ocorre tipicamente em felinos com dor nas articulações causada por condições como a osteoartrite.
Esconder-se e isolamento social
Tornar-se retraído e esconder-se é uma resposta felina clássica à dor. Os gatos fazem isso para tentar se proteger, conservar energia e minimizar o risco de experimentar mais desconforto. Eles podem se abrigar em locais incomuns, onde ficam parcial ou totalmente ocultos, parecendo mais sedentários do que o normal ou até mesmo deprimidos.
Além disso, gatos afetados podem evitar interagir com os seus tutores ou outros animais da casa. Felinos que antes eram sociáveis e gostavam de carinho podem escolher passar mais tempo em áreas afastadas para evitar a dor associada ao toque.
Alterações na mobilidade e inquietação
Gatos que sentem dor, especialmente dor articular, podem apresentar mudanças graduais e sutis na sua mobilidade. Um gato pode hesitar ao subir ou descer de móveis, ou achar difícil subir e descer escadas, possivelmente evitando-as por completo. Felinos afetados podem ter um andar rígido e são menos propensos a brincar.
Estudos recentes indicam que a osteoartrite é muito mais comum do que se imaginava, afetando entre 61% e 99% dos gatos, sendo uma das principais causas de dor crônica na espécie.
Surpreendentemente, não é apenas uma doença de gatos idosos; gatos com idade média de 6,5 anos já podem apresentar comprometimento articular, mesmo que os sinais radiográficos ainda não sejam evidentes. É importante ressaltar que os achados radiográficos são indicadores tardios da doença, e muitos gatos jovens já sofrem com desconforto articular muito antes de qualquer alteração ser visível em radiografias
Apesar de frequentemente ficarem menos ativos, alguns gatos com dor podem se tornar inquietos. Isso tende a acontecer quando o animal não consegue ficar confortável o suficiente para descansar adequadamente, levantando-se e movendo-se com frequência na tentativa de encontrar uma posição de descanso que não cause dor.
Mudanças no apetite e reatividade ao toque
Gatos com dor podem comer com menos frequência, em menor quantidade, ou parar de comer completamente, especialmente se tiverem febre ou náusea. Felinos com dor dentária geralmente continuam comendo, mas apresentam mudanças sutis, como mastigar apenas de um lado da boca, preferir alimentos macios, deixar cair a comida, babar ou passar a pata na boca.
Um gato com dor também pode rosnar ou sibilar (fazer “fuzz”) quando abordado por pessoas ou outros animais, além de tentar arranhar ou morder se for tocado. Eles respondem dessa forma para se proteger, prevenindo interações que possam causar mais sofrimento.
Eliminação inadequada (xixi fora da caixa)
Fazer as necessidades fora da caixa de areia ou em locais inaceitáveis é um sinal comportamental comum de dor em gatos. Em particular, felinos com dor nas articulações podem achar difícil entrar e sair da caixa de areia. Outros problemas de saúde, como a cistite idiopática felina e doenças gastrointestinais, também estão ligados à dor e podem causar esse comportamento.
A linguagem corporal da dor felina
Embora as mudanças na linguagem corporal possam ser sutis, existem sinais específicos que os tutores podem observar. Estes incluem:
| Região do Corpo | Sinais de Dor |
| Postura Geral | Tensa, encolhida ou agachada, com a cabeça alinhada ou abaixo da linha dos ombros. Gatos com dor nos membros podem transferir o peso de um lado para o outro ou sentar-se em posições estranhas. |
| Orelhas | Abaixadas, achatadas ou rotacionadas para fora. |
| Olhos | Totalmente fechados ou semicerrados (apertados). |
| Focinho e Bigodes | Focinho tenso e com formato elíptico. Bigodes retos, tensos e movendo-se para frente, afastando-se do rosto. |
| Cauda | Enrolada firmemente ao longo da lateral do corpo. |
Fale com o seu veterinário
Muitas condições de saúde podem causar dor em gatos, incluindo doenças dentárias, osteoartrite, doenças do trato urinário, problemas gastrointestinais, pancreatite, doenças renais, câncer e lesões.
Embora possa ser desafiador reconhecer e avaliar a dor nos gatos, as dicas deste artigo ajudarão você a identificar as mudanças comportamentais que podem indicar desconforto. Se você suspeita que o seu gato está sentindo dor, o melhor a fazer é entrar em contato com a nossa clínica veterinária e agendar uma avaliação de saúde o mais rápido possível.
Se o seu gato for diagnosticado com uma condição dolorosa, a Dra. Vanessa Zimbres desenvolverá um plano personalizado para ajudar a gerenciar a dor, mantendo-o o mais confortável possível e melhorando significativamente a sua qualidade de vida.







